Em “Vento Bravo de Noroeste”, Hugo Sovelas e Sónia Neves interpretam a solidão a que muitos idosos são votados, e a forma como a amizade pode ajudar a lidar com a falta de carinho. A peça está na Malaposta até 21 de Fevereiro.
pub
Dois octogenários preenchem os dias na companhia um do outro, embrenhados nas memórias do passado. O tempo passa devagar enquanto aguardam o último suspiro. É esse compasso de espera, recheado de episódios bucólicos e enternecedores, que “Vento Bravo de Noroeste” – em exibição na Malaposta até 21 de Fevereiro – descreve, num futuro não muito longínquo (ano 2029).

Boas interpretações
Em palco estão Hugo Sovelas (Manel Picamilho) e Sónia Neves (Graciete Jardim), que interpretam com mestria a postura e as expressões dos idosos, bem como a condição de isolamento a que muitos se resignam. Podiam ser marido e mulher mas o destino trocou-lhes as voltas. Quando ele foi para a Guerra do Ultramar, ela acabou por seguir a sua vida, apaixonar-se e casar. Muitas décadas depois Graciete enviúva e os vizinhos acabam por enfrentar juntos, numa rua que outrora fora movimentada e cheia de vida, a derradeira chegada do “Vento Bravo de Noroeste” que levará um de ambos.
A acção decorre na Encosta do Castelo, no dia em que Graciete celebra o 80º aniversário. Enquanto espera ansiosamente que o Skype lhe traga a voz calorosa da filha mais nova, emigrante na Suiça, conversa com Manel dos bons velhos tempos da sua juventude. Entre chás, uma prenda de anos, ou recordações das festas populares, o “casalinho” aceita as vicissitudes da idade, sentindo porém que a época das novas tecnologias, da escassez de água ou dos painéis solares já não é a sua.

Crítica à escassez de afectos
Segundo a encenadora Maria João Miguel a ideia para o texto (que criou juntamente com os dois actores), surgiu de «Improvisações», «Muitas observações e entrevistas», além da vontade de fazer uma crítica social à «Falta de carinho pela terceira idade». Desde a estreia, em Outubro passado, muitas crianças já viram a peça e sentiram a mensagem: «Alguns choraram e outros vieram-nos dizer que nunca tinham pensado a sério na solidão dos idosos», refere Maria João Miguel.
O espectáculo co-produzido pela Associação Artística Propositário Azul e o Centro Juvenil de Montemor-o-Novo está em exibição no café-teatro da Malaposta durante cinco dias por semana. Pode ser visto por escolas, mediante marcação, às quartas e quintas.
Texto e fotografias: Lina Manso
pub
|